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Por que algumas Igrejas condenam a Maçonaria?

Ao longo da história, poucas instituições despertaram tantas discussões quanto a Maçonaria. Entre as perguntas mais frequentes está uma que aparece constantemente em pesquisas na internet: por que tantas igrejas condenam ou criticam a Maçonaria?

A resposta não é simples. Ela envolve aspectos históricos, religiosos, filosóficos e até políticos. Para compreendê-la, é preciso olhar para o contexto em que essa relação foi construída.

Um conflito que atravessa os séculos

A principal oposição institucional à Maçonaria surgiu na Igreja Católica. Desde o século XVIII, diversos documentos pontifícios declararam incompatível a participação simultânea de um fiel católico na Igreja e na Ordem Maçônica.

Essa posição nasceu em um período marcado pelo fortalecimento do Iluminismo, pela defesa das liberdades individuais e pela separação entre Igreja e Estado. Em muitos países europeus, maçons participaram de movimentos que defendiam essas ideias, o que acabou aproximando a Maçonaria de mudanças sociais vistas com preocupação por parte da hierarquia eclesiástica.

No Brasil, esse conflito ganhou força durante a chamada Questão Religiosa, ocorrida no Império, quando bispos e autoridades civis entraram em confronto justamente em razão da participação de maçons em irmandades religiosas.

A liberdade religiosa como ponto central

Um dos princípios fundamentais da Maçonaria é a liberdade de consciência.

A Ordem não impõe uma religião específica aos seus membros. Pelo contrário, exige apenas que o candidato possua crença em um Princípio Criador, permitindo que cada maçom pratique livremente sua própria fé.

Em uma mesma Loja Maçônica podem conviver, de maneira harmoniosa:

  • católicos;
  • evangélicos;
  • judeus;
  • espíritas;
  • muçulmanos;
  • budistas;
  • entre outras tradições religiosas.

Essa convivência entre diferentes credos, aliada à defesa histórica da laicidade do Estado, fez com que a Maçonaria fosse frequentemente interpretada por algumas instituições religiosas como uma organização concorrente no campo das ideias.

A Maçonaria é uma religião?

Essa talvez seja uma das maiores causas do mal-entendido.

Embora utilize símbolos, alegorias, juramentos e rituais, a Maçonaria não possui dogmas religiosos, não administra sacramentos, não promete salvação espiritual e não pretende substituir qualquer religião.

Seu objetivo é o aperfeiçoamento moral e filosófico do indivíduo.

Entretanto, para muitos líderes religiosos, especialmente dentro da tradição católica e de parte das denominações evangélicas, esses elementos simbólicos são interpretados como incompatíveis com a prática cristã, o que explica a permanência das críticas até os dias atuais.

Nem todas as igrejas tiveram a mesma posição

Um aspecto pouco conhecido da história brasileira ajuda a mostrar que essa relação nem sempre foi marcada por antagonismo.

Após a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, diversos imigrantes americanos estabeleceram-se na região de Santa Bárbara d’Oeste e Americana, no interior paulista.

Muitos desses colonos eram protestantes e também maçons.

Na comunidade foi fundada a George Washington Lodge nº 309, e diversos de seus integrantes participaram ativamente da organização das primeiras comunidades batistas, metodistas e presbiterianas da região.

Entre eles destacam-se nomes como Richard Ratcliff, Robert Porter Thomas, Junius Estaham Newman, William Emerson e William Macfadden, apontados por diversas fontes históricas como líderes religiosos que também pertenciam à Maçonaria.

Foi justamente em Santa Bárbara d’Oeste que Richard Ratcliff organizou, em 10 de setembro de 1871, a primeira igreja batista destinada aos imigrantes americanos em território brasileiro.

Da mesma forma, diversos relatos históricos indicam que, durante os primeiros anos do protestantismo organizado no Brasil, maçons chegaram a ceder espaços para a realização de cultos quando essas comunidades ainda enfrentavam dificuldades para se estabelecer.

Esses fatos demonstram que a relação entre Maçonaria e Cristianismo nunca foi uniforme.

Então por que ainda existe tanta resistência?

As divergências atuais decorrem principalmente de interpretações doutrinárias.

Enquanto a Maçonaria entende que pessoas de diferentes religiões podem trabalhar juntas em favor do aperfeiçoamento humano, algumas igrejas defendem que determinadas práticas, juramentos ou concepções filosóficas presentes na Ordem não são compatíveis com sua compreensão da fé cristã.

Trata-se, portanto, de uma divergência legítima de entendimento religioso.

Ao mesmo tempo, a história mostra que houve inúmeros momentos de cooperação entre maçons e cristãos, especialmente na defesa da liberdade religiosa, da educação, da beneficência e da construção de uma sociedade mais tolerante.

Considerações finais

A relação entre a Maçonaria e as igrejas é muito mais complexa do que costuma aparecer em discursos simplificados.

Se por um lado existem condenações oficiais e divergências doutrinárias que permanecem até hoje, por outro a própria história revela inúmeros exemplos de colaboração entre maçons e diferentes comunidades cristãs.

Conhecer esse contexto histórico permite compreender que o debate não pode ser reduzido a estereótipos ou preconceitos. Afinal, durante mais de três séculos, Maçonaria e Cristianismo conviveram em momentos de tensão, mas também de respeito mútuo e cooperação.


Murilo Santana
Mestre Maçom, pesquisador e autor do projeto Entre Colunas.