
O Aprendiz não Fala?
Para tornar-se membro da Maçonaria, o candidato passa por rigorosos critérios de admissão e sindicância. Idealmente, seu padrinho deve conhecê-lo há bastante tempo, observando sua conduta e avaliando se possui os atributos necessários para tornar-se um maçom útil e dedicado — não apenas mais um membro destinado a ocupar uma cadeira por duas horas semanais ou quinzenais.
O aprendiz maçom escolhido geralmente possui conhecimentos sólidos em sua área de atuação profana. Esses conhecimentos são valiosos e certamente podem contribuir para o enriquecimento das colunas da Maçonaria.
Todos nós possuímos atributos positivos e negativos, simbolicamente representados no templo pelo pavimento mosaico. Para ser maçom, não é necessário possuir um alto grau hierárquico no mundo profano nem uma carreira extraordinariamente bem-sucedida. Muitas vezes, aprendizes que exercem profissões simples — lembrando que todo trabalho honesto é digno — demonstram grande dedicação e compromisso com a Ordem. Por outro lado, também existem aprendizes com elevado nível acadêmico e grande sucesso em suas carreiras. Todos são igualmente bem-vindos à Ordem Maçônica.
É importante ressaltar que, dentro do templo, todos são iguais, independentemente de cargos profanos, títulos ou funções administrativas dentro da potência maçônica.
No dia de sua admissão, ao ser recebido no templo, o candidato é preparado simbolicamente: sua perna direita e o lado esquerdo do peito são descobertos, caracterizando a condição de estar nem nu nem vestido. Ele também deixa seus metais e retira os sapatos. Em seguida, é vendado e conduzido à Câmara de Reflexões.
Ao depositar seus metais — seja em uma bolsa ou mochila — o candidato simbolicamente deixa ali todos os seus bens materiais e títulos adquiridos no mundo profano. De certa forma, ele morre simbolicamente para a vida profana para então renascer na Maçonaria, recebendo a Luz Maçônica e iniciando sua jornada na Ordem.
Após a iniciação, o recém-iniciado é colocado na Coluna do Norte, próximo à coluna zodiacal de Áries, simbolizando um novo nascimento. Assim como uma criança que inicia sua jornada no mundo, o aprendiz começa seu crescimento sendo nutrido pelo conhecimento maçônico.
O aprendiz jamais deve ser tratado — com o perdão da palavra — como um ignorante. Muito pelo contrário. Ele possui habilidades, conquistas e experiências que devem ser respeitadas. Contudo, dentro do templo, espera-se que utilize esse período inicial — tradicionalmente cerca de um ano — para observar e aprender.
Infelizmente, alguns maçons, quando questionados por um aprendiz e não sabendo responder, utilizam de forma inadequada a expressão:
“Aprendiz não fala.”
De fato, o ritual maçônico afirma que “como aprendiz não sei falar”, mas essa frase não deve ser interpretada de forma literal. Ela não significa que o aprendiz não possua capacidade de pensar ou de se expressar.
O verdadeiro sentido dessa expressão é pedagógico e simbólico.
O aprendiz deve dedicar-se a observar atentamente tudo o que ocorre ao seu redor: as alegorias presentes no templo, os símbolos, a ritualística e os ensinamentos do grau. Perguntas são naturais e fazem parte do processo de aprendizado, desde que estejam relacionadas ao estudo próprio do grau.
Não significa, entretanto, que o aprendiz deva limitar sua curiosidade intelectual. Contudo, buscar compreender ensinamentos de graus superiores ou de outros ritos antes de consolidar a base do grau de aprendiz seria como estudar medicina antes mesmo de ser alfabetizado.
Assim, a expressão “aprendiz não fala” encontra seu verdadeiro complemento na ideia de que:
“Aprendiz não fala, aprendiz observa.”
As capacidades profanas dos aprendizes jamais devem ser desprezadas. Pelo contrário, elas devem contribuir para o crescimento da Loja. Quando o aprendiz apresenta seus trabalhos — as chamadas peças de arquitetura — ele pode enriquecer os estudos maçônicos com seus conhecimentos e experiências.
No templo, cada grau ocupa simbolicamente seu lugar.
Os Mestres Instalados e as autoridades da Potência abrilhantam o Oriente.
Os Companheiros ocupam a Coluna do Sul.
E os Aprendizes se colocam na Coluna do Norte.
Como lembra o Irmão Primeiro Vigilante, essa posição permite ao aprendiz melhor observar a passagem do Sol pelo meridiano. Mais uma vez, reforça-se a ideia de que o aprendiz deve observar atentamente, para que, ao alcançar o grau de Companheiro, possua sólida compreensão das alegorias do templo, da ritualística e dos ensinamentos fundamentais do grau de Aprendiz.
Entretanto, essa separação física no templo não torna ninguém melhor ou pior. Ela apenas representa os diferentes níveis de conhecimento maçônico que cada irmão alcançou ao longo do tempo e de seu compromisso com a Ordem.
Dentro do templo, todos são absolutamente iguais.
Cargos, insígnias e títulos profanos devem permanecer do lado de fora, pois, quando trazidos para dentro da Loja, tornam-se apenas manifestações de vaidade — e a vaidade é um dos vícios que o verdadeiro maçom deve aprender a combater ao longo de sua jornada.
Joaquim Inácio Cruz
