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Analisando a Acusação Feitas contra a Maçonaria
Poucas acusações contra a Maçonaria são tão recorrentes quanto a afirmação de que ela seria uma organização satanista. A ideia circula há décadas em vídeos, livros, redes sociais e debates religiosos, levando muitas pessoas a aceitar essa conclusão sem jamais terem estudado a história da Ordem ou conhecido uma Loja Maçônica.
Mas será que essa acusação possui algum fundamento histórico? Ou estamos diante de mais um mito construído ao longo dos séculos?
O que é satanismo?
Antes de responder à pergunta, é necessário definir o que significa satanismo.
De forma geral, o satanismo é um conjunto de crenças ou práticas que tem Satanás como figura central, seja como objeto de adoração, símbolo filosófico ou referência espiritual.
Assim, para que uma instituição pudesse ser considerada satanista, seria necessário que promovesse o culto a Satanás, realizasse rituais voltados a essa finalidade ou tivesse seus ensinamentos fundamentados nessa figura.
Ao analisarmos a Maçonaria Regular, não encontramos nenhum desses elementos.
Não existe culto a Satanás.
Não existem rituais de adoração ao demônio.
Não há qualquer ensinamento que apresente Satanás como referência moral ou espiritual.
De onde surgiu essa acusação?
A origem dessa ideia está muito mais ligada aos conflitos religiosos e políticos da história do que aos ensinamentos maçônicos.
Em 1738, o Papa Clemente XII publicou a bula In Eminenti Apostolatus Specula, o primeiro documento oficial da Igreja Católica condenando a Maçonaria. A principal preocupação da Igreja não era uma suposta adoração ao demônio, mas o fato de homens de diferentes religiões reunirem-se em igualdade dentro das Lojas Maçônicas, além da discrição que cercava seus trabalhos.
Ao longo dos séculos, outras bulas e documentos pontifícios reforçaram essa posição, consolidando uma longa divergência entre a Igreja Católica e a Maçonaria.
Entretanto, é importante destacar que essas condenações não afirmavam que a Maçonaria fosse satanista. As objeções estavam relacionadas a questões doutrinárias, filosóficas e à autonomia de pensamento incentivada pela Ordem.
Com o passar do tempo, porém, muitas pessoas passaram a interpretar essa oposição como uma evidência de que a Maçonaria seria algo maligno. Foi nesse ambiente que surgiram inúmeras acusações sem base documental, entre elas a de satanismo.
O papel do desconhecimento
Grande parte das pessoas que afirmam que a Maçonaria é satanista jamais entrou em uma Loja Maçônica.
Nunca conversou com um maçom.
Nunca estudou sua história.
Nunca leu um ritual ou uma obra séria sobre a instituição.
Em vez disso, baseia suas conclusões em conteúdos sensacionalistas, vídeos de internet ou interpretações produzidas por pessoas que igualmente desconhecem a realidade maçônica.
Naturalmente, ninguém é obrigado a concordar com a Maçonaria. No entanto, qualquer crítica responsável deve estar fundamentada em fatos, e não na repetição de boatos.
O que a Maçonaria exige de seus membros?
Um dos princípios fundamentais da Maçonaria Regular é a crença na existência de um Ser Supremo.
Cada membro o reconhece segundo sua própria tradição religiosa: Deus, Jeová, Allah, Adonai ou outro nome adotado por sua fé.
Dentro da Maçonaria utiliza-se a expressão Grande Arquiteto do Universo, uma forma simbólica de permitir que homens de diferentes religiões convivam fraternalmente, sem discutir qual crença seria superior às demais.
Essa expressão não substitui a religião de ninguém e tampouco cria uma nova divindade.
O que dizem os fatos?
Ao longo de mais de três séculos, a Maçonaria reuniu cristãos, judeus, muçulmanos, espíritas, protestantes de diversas denominações e homens de inúmeras tradições religiosas.
Todos convivendo dentro de uma mesma instituição, preservando suas convicções pessoais.
Se a Maçonaria realmente promovesse o culto a Satanás, dificilmente teria atraído milhões de homens profundamente religiosos ao longo de sua história.
Essa realidade, por si só, já enfraquece significativamente a acusação.
E as referências a Lúcifer?
Outro argumento frequentemente utilizado por críticos da Maçonaria envolve supostas citações sobre Lúcifer, atribuídas principalmente ao maçom norte-americano Albert Pike.
Na maioria das vezes, essas frases aparecem fora de contexto, incompletas ou simplesmente falsas.
Diversos estudiosos demonstraram que muitas das citações reproduzidas na internet jamais foram escritas por Pike ou foram retiradas de passagens cujo significado original foi completamente alterado.
Além disso, Albert Pike jamais representou toda a Maçonaria mundial, mas apenas um ramo específico do Rito Escocês Antigo e Aceito nos Estados Unidos.
Um exercício de coerência
Vale refletir sobre algumas perguntas simples.
Se a Maçonaria fosse satanista:
- por que exigiria a crença em Deus?
- por que utilizaria livros considerados sagrados em seus trabalhos?
- por que incentivaria a prática da caridade?
- por que estimularia valores como honestidade, fraternidade e justiça?
- por que defenderia o aperfeiçoamento moral de seus membros?
Esses elementos não se harmonizam com a ideia de uma instituição dedicada ao culto do mal.
A importância dos símbolos
Outro fator que contribui para o surgimento dessas acusações é o forte caráter simbólico da Maçonaria.
Esquadros, compassos, colunas, estrelas, ferramentas da construção e diversas alegorias fazem parte de sua linguagem tradicional.
Para quem observa esses símbolos sem conhecer seus significados, eles podem parecer misteriosos.
Entretanto, mistério não é sinônimo de maldade.
Na Maçonaria, os símbolos constituem um método de ensino voltado ao desenvolvimento moral, filosófico e intelectual de seus membros.
Conclusão
Historicamente, documentalmente e filosoficamente, não existe fundamento para afirmar que a Maçonaria seja satanista.
Essa acusação nasceu em um contexto de conflitos religiosos, foi alimentada pelo desconhecimento e acabou sendo amplificada por interpretações equivocadas e teorias conspiratórias.
Isso não significa que a Maçonaria esteja acima de críticas. Como qualquer instituição humana, ela pode ser debatida, analisada e até contestada.
Mas essas críticas devem sempre partir de fatos verificáveis, e não de boatos repetidos ao longo do tempo.
A verdadeira compreensão da Maçonaria começa quando substituímos o preconceito pelo estudo e a imaginação pelo conhecimento.
*Murilo de Alcântara Santana
Entre Colunas.
